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a miserável mentira

a miserável mentira

frame final.

por Fábio Miguel Leite, em 14.12.15

 

Este é o último frame do último filme de João César Monteiro, Vai e Vem. Tinha 19 anos quando o vi pela primeira vez. E a ingenuidade de quem começou a ver cinema e deixou de ver filmes. Rapidamente o apelidei de genial. Tentei justificá-lo. Vi nele referências a Buñuel, Rivette e Tarkovsky. A ideia do olho que tudo vê. Sei que vou morrer mas estarei sempre a observar, a projectar o meu fantasma. 

 

Hoje voltei a vê-lo. E percebi que não há nada para justificar. Não há nenhuma mensagem para o futuro. Não há absolutamente nada. É só um olho e alguém que, sabendo que vai morrer, nos diz: "Isto é o fim. Tudo o que viram nos últimos 30 anos foi a única mensagem que quis deixar".  

 

As despedidas deviam ser todas assim. Sobre lembrar os legados e não sobre evidenciar as frustrações. As expectativas incumpridas. São sempre as expectativas que nos lixam. Grande parte delas são miseráveis mentiras que contamos a nós e aos outros. E no fim não fica nada. E se ficar um olho - é cego. 

 

Consta que João César via bem. 

sobre a ausência.

por Fábio Miguel Leite, em 20.03.15

 Vasco Gato - Fera Oculta

treze no totobola.

por Fábio Miguel Leite, em 15.10.14

O mundo não é lugar para um pacifista. Fomos todos forjados na guerra. E eu não vou ser o teu treze no totobola. 

o jornalismo é que nos salva.

por Fábio Miguel Leite, em 09.07.14

Ocupo muito do meu tempo livre a tentar pôr-me a par do está a acontecer no mundo. Sou um news freak. Sou aquela pessoa que tem a Sic Notícias como canal default. Sempre que quero ter um som de fundo é a esse canal que recorro. Sempre que ligo a TV é na Sic Notícias que começa o meu zapping. Não tenho muito tempo para ler ficção. Gostava de ter mais. Aproveito as férias para isso. Leio jornais todos os dias. Vários jornais. Online. Alguns por ossos do oficio: os desportivos. Não acho que o futuro da imprensa sejam assinaturas online e sei que o papel nunca vai acabar. É muito mais prazeroso ler no papel. Mas o mundo digital é mais cómodo e barato. Tenho duas assinaturas activas. Expresso e Publico. O Expresso tem os melhores cronistas e - mesmo sendo um jornal semanal - tem sempre as breaking news que importam. É um jornal de análise. E os jornais diários deixaram de o ser. A reflexão vende pouco. O Publico é o melhor dos diários. Boas crónicas e português bem escrito. O tratamento dado à nossa língua pelos jornais diários é medonho. 

 

A semana passada fiquei surpreendido ao ler a entrevista de Clara Ferreira Alves ao Carlos Cruz. A Clara é das jornalistas que melhor trata a nossa língua. Só por isso já merece crédito. É alguém que se prepara muito bem. Investiga e analisa. E analisou o caso Casa Pia e as ligações de Carlos Cruz ao processo. Fê-lo minuciosamente. E fez algo surpreendente. Olhou para os factos e interpretou-os. Sem medo. E na introdução da entrevista assumiu que achava que Carlos Cruz não era culpado. Estava preso injustamente. Fez jornalismo. 

 

A Clara é uma jornalista experiente. E que provavelmente tem a liberdade de não precisar do jornalismo para viver. Essa é a maior liberdade que se pode ter num trabalho. E a única maneira de o executar em pleno. Não é normal vermos jornalistas a emitir opinião aquando da realização de entrevistas. E a Clara provou que uma entrevista não perde valor por isso. O juízo dela não condicionou o meu. E tenha a certeza que não condicionou o de nenhum leitor. O que condiciona são sempre as perguntas. E ela soube fazer as perguntas certas. Abriu espaço à conversa. Não procurou justificações. Não procurou ideias fracturantes para comercializar a conversa. Não procurou o soundbyte.

 

Esta atitude tem mais valor num país onde a comunicação social parece muitas vezes concionada. E por muitas razões. O dono do órgão de comunicação que acha que pode decidir uma linha editorial. O medo de perder o emprego num país sem trabalho. Ou a simples comodidade de fazer tudo certinho. Sem incomodar. Todas as razões são validas. Nada que esteja em falência vai ser livre. Mas pode ser verdadeiro. Basta assumir. As pessoas preferem sempre a verdade. Mesmo que ela represente o fim de uma mentira miserável. 

locke

por Fábio Miguel Leite, em 30.06.14

 

 

A miúda queria ir ao cinema. Já se sabe que no verão só se vai ao cinema para comer pipocas. Eu já fui dos que odiava comer pipocas no cinema. E achava que aquele barulho irritante provocado pelo crocante das ditas estragava a minha experiência cinematográfica. Rendi-me. O puto gordo dentro de mim venceu. Fomos então ao cinema. A programação no verão costuma ser medonha. Normalmente resume-se ao Adam Sandler a levar à falência mais um estúdio. Um filme despertou-nos a atenção: Locke. É de 2013. Escrito e realizado pelo Steven Knight. E do gajo que escreveu o Eastern Promisses esperam-se coisas boas. Chega atrasadíssimo a Portugal. Alguém deve ter comprado uma cópia sem querer. 

 

Locke é sobre um homem dentro de um carro a falar ao telefone. Sempre. Muitos dos meus filmes favoritos são passados num único decor. The Rope e 12 Angry Men estão em lugar de destaque nessa lista. É um filme sobre o erro. E a capacidade de o emendar. É um filme sobre um encarregado de construção civil que comete um erro capital. Erros capitais são todos aqueles que têm a capacidade de destruir o que pensamos ser moldado a betão. Em todas as críticas de todos os géneros artísticos de todos os jornais e revistas em algum momento se diz que algo traduz a natureza humana. Este filme é sobre um homem que luta contra ela. Ivan Locke é um homem que não foge. E ás vezes é mais fácil fugir.  

 

Tom Hardy representa Ivan Locke. O Hardy tem talento. E tem feito bons filmes. Ivan Locke é um personagem que facilmente podia cair num homem descontrolado, irascível e repugnante para o espectador. Hardy dá-lhe um sotaque galês que o torna pitoresco. Dá-lhe controlo e subtileza. E isso dá verdade ao filme. E consegue um efeito: o apreço do espectador. Ivan Locke escolheu não contar a miserável mentira. O unguento do erro mais condenável é a capacidade para o emendar. 

 

Locke é um filme que vai crescendo em quem o viu. Acontece com alguns filmes. O nosso cérebro está demasiado formatado ao cinema pastilha elástica para processar tudo de uma vez. Locke  é um dos melhores filmes de 2013. E 2013 foi um ano bom. Gosto de dar notas às coisas. As coisas funcionam melhor em escala. Ontem Locke era um sete e meio em dez. Hoje é um nove em dez

27 anos. 27 lições.

por Fábio Miguel Leite, em 20.06.14

Em Maio fiz 27 anos. Não é um número redondo. Não há sequer nenhuma crise tipificada que aconteça aos 27 anos. Morrer com 27 anos é a coisa mais pop culture que se pode fazer aos 27. Os 27 anos não são os novos nada. São 27. 2. 7. Mas serviu para reflectir. E pensar no que tinha aprendido até então. Aprendi 27 lições. Não uma por ano. Mas 27. Sem ordem de importância. 

 

1ª - O tempo é o meu bem mais precioso. Aprender a geri-lo é uma lição ainda não aprendida. 

 

2ª - A vida às vezes vai ser uma merda. Relativizar é palavra de ordem. 

 

3ª - Queres fazer bem uma coisa? Faz tu. Nunca delegues nada que seja realmente importante para ti. 

 

4ª - A vida só faz real sentido se tiveres alguém com quem a partilhar.

 

5ª - Aprender a amar alguém mais do que a ti mesmo é a maior sensação de liberdade.

 

6ª - A estagnação é a morte em vida.

 

7ª - Livros. Cinema. Revistas. Viagens. São a única coisa onde se gasta dinheiro e se fica mais rico.

 

8ª - Informação é poder. E esse é o mais útil e desvalorizado poder.

 

9ª - Definir sempre objectivos a cumprir. Após cumpridos definir novos. Até morrer.

 

10ª - Ninguém te vai dar nada. Queres? Luta. Sabe melhor assim.

 

11ª - Um dia acordas e sentes que queres passar o resto dos teus dias com alguém. Vai atrás disso.

 

12ª - Ter vícios é importante. As pessoas sem vícios são desinteressantes. O Benfica não conta. 

 

13ª - Tu não és o teu trabalho. O teu trabalho não te define. 

 

14ª - O medo é uma qualidade. A mais limitadora das qualidades. 

 

15ª - Questionar tudo. Tudo. 

 

16ª - Aprender a cozinhar torna tudo mais fácil. 

 

17ª - Não escolhas a mulher com quem queres passar o resto dos teus dias só pela beleza física. A beleza é efémera. 

 

18ª - Sair de casa dos país vai ser difícil. Mas não os abandones. Eles vão admirar a tua independência e lealdade. 

 

19ª - Não vale a pena entrar em discussões para medir egos. Desiste das discussões onde no fim ninguém ganha. 

 

20ª - Fazer amigos no trabalho é mais difícil do que parece. Alguns são só isso. Amigos do trabalho. 

 

21ª - A liderança sem disciplina é um mito.

 

22ª - Inveja o que os outros têm. Não a pessoa em si. Isso pode ajudar-te a traçar objectivos.

 

23ª - "Quem tem boca vai a Roma." É o único provérbio que importa.

 

24ª - O colectivo é sempre mais forte. Mas esse colectivo tem de ter uma face. 

 

25ª - Os amigos que importam não são necessariamente as pessoas com quem passas mais tempo. 

 

26ª - A roupa importa. A apresentação importa. Muito. Quem te disser o contrário está a mentir. 

 

27ª - A felicidade é mesmo só uma questão de perspectiva. 

quem sou e não o que faço.

por Fábio Miguel Leite, em 18.06.14

Fábio. 27 anos. Tenho um registo médico impecável tirando duas hérnias discais. Estou a aprender a viver com elas. Hei-de lhes dar um nome. Tenho uma mulher bonita. Tenho uma casa bonita. E trabalho num sítio bonito. E que paga as contas. Todas as que vierem até ao dia 20. Acho que o segredo da vida está no fundo de uma travessa de arroz de pato. Ou numa canção de The Smiths. Ainda não o encontrei. Sou consumista. Gosto de roupa e de ténis. Andámos demasiado tempo descalços para não valorizar o calçado. E as marcas importam. Mas só se souberes se a matéria-prima é melhor. Não conheço nenhum realizador melhor que o Kubrick. Kubrick é o nome do meu gato. Gosto de cães. O mercado de trabalho ensinou-me tudo sobre a escola. A escola não me ensinou nada sobre o mercado de trabalho. A escola é sobre aprender a viver em sociedade. Sobre educação. Não é sobre matéria. Dois anos fechado numa biblioteca servem para aprender toda a matéria que se aprende na escola. Universidade incluída. Não gosto de dinheiro. Tudo é mais importante que o dinheiro. E a influência é a mais importante das coisas. Portugal é um país sem esperança por causa disto. Há demasiada gente com demasiado dinheiro e pouca gente com influência. Ou vontade de a exercer. Para o bem. Não tenho religião. Gosto do Papa Francisco. Se apenas a fé fosse dogmática exisitiam mais fiéis. Todos precisamos de acreditar em alguma coisa. Não sou de esquerda nem de direita. E acho o centro chato. Sou de ideias. Mas ninguém tem ideias. Mas têm mentiras. E eu prefiro uma miserável mentira a uma mentira miserável. 

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