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a miserável mentira

a miserável mentira

frame final.

por Fábio Miguel Leite, em 14.12.15

 

Este é o último frame do último filme de João César Monteiro, Vai e Vem. Tinha 19 anos quando o vi pela primeira vez. E a ingenuidade de quem começou a ver cinema e deixou de ver filmes. Rapidamente o apelidei de genial. Tentei justificá-lo. Vi nele referências a Buñuel, Rivette e Tarkovsky. A ideia do olho que tudo vê. Sei que vou morrer mas estarei sempre a observar, a projectar o meu fantasma. 

 

Hoje voltei a vê-lo. E percebi que não há nada para justificar. Não há nenhuma mensagem para o futuro. Não há absolutamente nada. É só um olho e alguém que, sabendo que vai morrer, nos diz: "Isto é o fim. Tudo o que viram nos últimos 30 anos foi a única mensagem que quis deixar".  

 

As despedidas deviam ser todas assim. Sobre lembrar os legados e não sobre evidenciar as frustrações. As expectativas incumpridas. São sempre as expectativas que nos lixam. Grande parte delas são miseráveis mentiras que contamos a nós e aos outros. E no fim não fica nada. E se ficar um olho - é cego. 

 

Consta que João César via bem. 

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