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a miserável mentira

a miserável mentira

locke

por Fábio Miguel Leite, em 30.06.14

 

 

A miúda queria ir ao cinema. Já se sabe que no verão só se vai ao cinema para comer pipocas. Eu já fui dos que odiava comer pipocas no cinema. E achava que aquele barulho irritante provocado pelo crocante das ditas estragava a minha experiência cinematográfica. Rendi-me. O puto gordo dentro de mim venceu. Fomos então ao cinema. A programação no verão costuma ser medonha. Normalmente resume-se ao Adam Sandler a levar à falência mais um estúdio. Um filme despertou-nos a atenção: Locke. É de 2013. Escrito e realizado pelo Steven Knight. E do gajo que escreveu o Eastern Promisses esperam-se coisas boas. Chega atrasadíssimo a Portugal. Alguém deve ter comprado uma cópia sem querer. 

 

Locke é sobre um homem dentro de um carro a falar ao telefone. Sempre. Muitos dos meus filmes favoritos são passados num único decor. The Rope e 12 Angry Men estão em lugar de destaque nessa lista. É um filme sobre o erro. E a capacidade de o emendar. É um filme sobre um encarregado de construção civil que comete um erro capital. Erros capitais são todos aqueles que têm a capacidade de destruir o que pensamos ser moldado a betão. Em todas as críticas de todos os géneros artísticos de todos os jornais e revistas em algum momento se diz que algo traduz a natureza humana. Este filme é sobre um homem que luta contra ela. Ivan Locke é um homem que não foge. E ás vezes é mais fácil fugir.  

 

Tom Hardy representa Ivan Locke. O Hardy tem talento. E tem feito bons filmes. Ivan Locke é um personagem que facilmente podia cair num homem descontrolado, irascível e repugnante para o espectador. Hardy dá-lhe um sotaque galês que o torna pitoresco. Dá-lhe controlo e subtileza. E isso dá verdade ao filme. E consegue um efeito: o apreço do espectador. Ivan Locke escolheu não contar a miserável mentira. O unguento do erro mais condenável é a capacidade para o emendar. 

 

Locke é um filme que vai crescendo em quem o viu. Acontece com alguns filmes. O nosso cérebro está demasiado formatado ao cinema pastilha elástica para processar tudo de uma vez. Locke  é um dos melhores filmes de 2013. E 2013 foi um ano bom. Gosto de dar notas às coisas. As coisas funcionam melhor em escala. Ontem Locke era um sete e meio em dez. Hoje é um nove em dez

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